Alunos se mobilizam para diminuir desperdício de merenda na escola

Alunos se mobilizam para diminuir desperdício de merenda na escola

(Por Claudia Corbett)

O descarte diário das sobras de comida incomodava alguns alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Júlio de Mesquita Filho, localizada na cidade de Campinas/SP. Diante desta situação vivenciada na merenda, eles resolveram se mobilizar para conscientizar seus colegas e tentar eliminar esse desperdício.

Desta atitude surgiu o projeto Alimentação Saudável, fruto do envolvimento de 12 adolescentes, acompanhados pela professora de história, Patrícia Morais T. de Oliveira.  A iniciativa faz parte das atividades da Comissão Própria de Avaliação (CPA) que tem como objetivo avaliar, apontar e comprometer-se com a sensibilização da comunidade escolar sobre o que pode ser melhorado no estabelecimento de ensino.

O primeiro passo para a mudança diz respeito à atitude da própria equipe. “Começamos a perceber que muitos alunos dos primeiros anos estavam deixando a merenda para comer salgadinhos industrializados, bolachas recheadas e doces. Além do que, desperdiçavam e jogavam quase toda comida do prato no lixo”, relatou a aluna Kezia Nascimento, de 13 anos. “Assim como alguns de nós, os alunos também tinham a mania de brincar de ‘guerrinha’, principalmente com as frutas que eram distribuídas pelas merendeiras”, completou Beatriz Aparecida da Silva Lisboa, também de 13 anos.

Quem não levava as guloseimas de casa, se arriscava pulando muro para comprar na mercearia localizada atrás da escola. “Os alunos trouxeram essas preocupações: com a segurança dos colegas e com a má qualidade da alimentação. Somado a isso, o desperdício que vinha acontecendo e que para eles também era alarmante”, explicou a professora. A partir disso, começaram a discorrer sobre o que poderia ser feito para mudar hábitos alimentares. A ideia era trabalhar só com a turma do período da tarde, mas definiram que seria mais efetivo a conscientização junto a todos os alunos da escola.

Primeiros passos

A primeira ação foi a elaboração de uma apresentação de conscientização para  alunos dos 1º e 5º anos. O apoio das professoras em sala de aula também foi demandado e elas foram convidadas a incentivar os pequenos a comerem melhor.  O segundo passo foi acompanhar o lanche destes primeiros anos para verificar o que as crianças deixavam no prato.  “Buscamos saber o motivo de deixarem tanta comida no prato e conversar com eles para que experimentassem quando não conheciam ainda o alimento”, contou Raquel Mascarenhas dos Santos Pereira, 15 anos.

Depois da observação, montaram uma apresentação dinâmica com vídeos e fotos e fizeram um jogo com as crianças. Por perceberem que os alunos mais novos comiam melhor as refeições doces do que as salgadas resolveram que o personagem da primeira investida seria o açúcar. Mostraram o quão nocivo esse ingrediente – presente em refrigerantes e guloseimas industrializados – é quando ingerido em grandes quantidades.

O grupo do projeto decidiu também conversar com os alunos sobre a ‘guerrinha’ de frutas. Falaram sobre a importância dos alimentos e número de pessoas sem acesso ao que comer. “Com essa campanha feita no corpo a corpo, eles conseguiram uma mudança radical de comportamento”, comemorou Patrícia.

Desperdício

Os desafios para mudar esse cenário são muitos. A primeira pesagem dos alimentos da merenda escolar que eram descartados foi realizada no início deste ano letivo. Em uma semana, o total de alimentos desperdiçados foi de cerca de 15 quilos. Diante desse resultado, o grupo sugeriu à equipe da cozinha que diminuísse a quantidade de comida servida. “Colocamos também um cartaz no corredor que dá acesso ao refeitório informando que por dia 925 milhões de pessoas passam fome no mundo. E ainda um gráfico no qual apontamos as quantidades diárias que vão para o lixo. Com isso, quisemos provocar a conscientização dos alunos, para que pensem antes de jogar fora a comida”, enfatizou Raquel.

Esta iniciativa de pesar o descarte também possibilitou que a equipe descobrisse qual eram os alimentos preferidos dos alunos de acordo com as idades. O arroz doce é a merenda mais bem aceita. Não houve descarte pelos 8º e 9º anos e a quantidade descartada pelos 6º e 7º não foi expressiva. Os 3º e 4º jogam muita comida fora e os 1º e 2º anos são os que mais desperdiçam alimentos. Percebeu-se que o risoto, o peixe e ovos são os alimentos mais desprezados por esses grupos de estudantes do ciclo I do Ensino Fundamental. Eles gostam mais de sopa e frutas, além dos alimentos doces. Comem especialmente o arroz e o caldo do feijão.

Com o caminhar das ações, houve uma aproximação do grupo de alunos com a equipe da cozinha. Isso fez com que as cozinheiras começassem a prestar atenção nos alunos e rotinas. Ao saberem que a jornada de aulas dos alunos do 8º e 9º anos é mais prolongada às quintas-feiras, trocaram o cardápio de doce para o de arroz, feijão e carne que era servido na sexta-feira. “O nosso intervalo acontece às 15h15 e as aulas terminam às 18h45. Com essa troca de cardápio passamos a não ter mais fome até o término do período”, elogiou Kezia.

O acesso ao cardápio foi uma outra conquista da equipe. Há uma possibilidade de alteração, mas os alunos podem se programar e trazer algo saudável para comer, caso não gostem do que será servido. “Todos os alunos agora têm acesso ao que será servido durante a semana”, contou Lorrayne da Silva Oliveira, 12 anos.

À medida que as ações são implementadas o desperdício começa a diminuir. As crianças passaram a demonstrar interesse em conhecer novos alimentos. O diálogo foi produtivo nos dois períodos. Mais um ganho dos jovens defensores da boa alimentação e do não desperdício.

Próximos passos

O sistema de controle de descarte por meio da pesagem deve ser feito mais uma vez. “Queremos saber de quanto foi a mudança em relação ao descarte de alguns alimentos. A informação resultante será somada ao resultado de uma enquete que também será aplicada para saber quais as opções do cardápio que os alunos mais gostam”, destacou Beatriz. Mas os alunos querem ir além. No segundo semestre, pretendem montar um material didático sobre Alimentação Saudável para que seja trabalhado com as famílias. “Desta forma acreditamos que chegaremos ao ideal”, completou.

Alunos protagonistas

Em 2016, o projeto Alimentação Saudável foi um dos finalistas do Prêmio Atitude Educação, criado em 2014 e voltado para estudantes do ensino fundamental, médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA) das redes públicas municipal e estadual.

A iniciativa é anualmente promovida pelo Departamento de Educação da Fundação FEAC. Na sua terceira edição, a premiação teve como tema “Alunos Protagonistas. Que diferença vocês fazem?”

Esta edição buscou reconhecer grupos de alunos que já desenvolviam ou que tinham projetos a serem desenvolvidos como uma contribuição para solucionar situações ou problemas da escola ou comunidade onde estudam, visando a melhoria na qualidade da educação pública no município.

Segundo a orientadora pedagógica Janaína Tunussi de Oliveira, foi motivador para os alunos a participação nesta premiação. Houve muito empenho para gravar o vídeo e muita mobilização e envolvimento de todos da escola para divulgar a votação. “Os alunos se interessaram mais ainda pelo projeto quando viram que foi bem avaliado”, assegurou.

Confira o projeto Alimentação Saudável: atitudeeducacao.feac.org.br